Saturday, 24 September 2016

Do you know Cristiano Ronaldo? (Aventuras dum galego na Inglaterra)




Os galegos sempre tivemos umha grande vocaçom migratória. Quando as cousas estám difíceis, liscamos, mais do que faguermos revoluições. Na minha família já emigrámos pra muitos lugares e países, uns mais próximos e outros mais longes. Por vezes voltámos, por vezes nom, e assi vam ficando ponlas da família espalhada polo mundo afora. Porém, umha das maiores dificuldades que esta prática espacial acarreta e a do contraste linguístico e cultural vivenciado no lugar de destino. Por vezes ele é menor,  quando alô se
fala umha língua bem conhecida (o espanhol, em Madrid ou em Argentina), ou mui semelhante (o português, em Lisboa ou no Brasil), por vezes ele é maior, quando a língua falada e a cultura som diferentes (na França) ou mui diferentes (na Inglaterra, nos Estados Unidos). O meu caso é o último, e aí continuamos a brigar pra sobreviver. Por exemplo, o idioma inglês, castrapo horripilante onde os houver, tem umha pronúncia enrevesada de todos os diabos. Os costumes dos anglo-saxônios som tamém mui peculiares, de forma que leva algum tempo pra afazer-se a dizer obrigado e de nada cincocentas vezes por dia. A retranca deles, chamada sarcasmo, é o que leva menos tempo a deprender, pois é coma a nossa, embora como que mais distante e sofisticada. As corenta cuncas de chá por dia, as longas seráns do vrao, o ritmo e espírito calmos, tamém demora um tempo a naturalizar (assi como deprender a respeitar as distâncias de 30 milhas náuticas no espaço persoal, ou a acubilhar-se na casa de banho do trem quando passa o revisor, mas lá imos chegando). Em qualquer caso, eu sempre fum de xorne ecléutico, de maneira que só perfilho aquilo que for estritamente necessário ou que me prestar.

No entanto, nesta loita de adaptaçom e sobrevivência contínua, acontece um dia que já nom somos o que adoitavamos ser, têndomonos tornado um híbrido ou mutante, a meio caminho antre o que eramos e o que deveremos ser. Isto é, já nom seriamos quem de nos arranxar na Galiza, ou na Espanha, mas ao mesmo tempo os nossos jeitos e a nossa fala aindam prendem, ficando bem longe daqueles dum castrapo-saxônio indígena. Acontece por isso amiúde que me perguntem de onde som. Esta é umha pergunta delicada. Aliás, mui delicada. Quer eu responda polo nome da minha vila (tam desconhecida aqui coma Pontefract é na Galiza) quer polo da minha naçom («Galithia», em castrapo-saxônio), a resposta seria insuficiente. Ulteriormente, por simples métodos de pescuda deductiva, chegariamos a um lugar bem conhecido: Spain. Pra dissipar as dúvidas, vou ilustrar esse cenário:

Cenário 1:
— Where are you from, sir?
— I’m from «Galithia»
— Galithia? Never heard ... is it in France?
— No, in Spain ... (dito com muita resignaçom)
— Ah, you like your fiesta and sangria, eh? Do you have any bullfighter in your family?
— ...

O equívoco é claro e crasso. Como evitar entom esta percepçom errada da minha natureza nacional? Bem, eu já provei várias outras estratégias, que passo a ilustrar acô em baixo, em formato mais umha vez de cenários:

Cenário 2 (A)
— Where are you from, sir?
— I’m from «Galithia»
— Galithia? Never heard ... is it in Kazakhstan?
— No, it is in Galithia
— You taking the micky? C’mon, you are Italian, arent’ you? Mamma miaaa … (dito cum sotaque italiano bastante ruim e gesticulando à italiana)
— ...

Cenário 2 (B)
— Where are you from, sir?
— I’m from «Galithia»
— Galithia? Never heard ... where is it?
— Accross the water (apontando prà banda do mar)
— Where, the Channel islands? That’s why you speak with a French accent?
— ...

Cenário 2 (C)
— Where are you from, sir?
— From nowhere
— From nowhere? Surely you must come from somewhere …
— Yeah, from Nowhere city, Republic of Nowhere
— Ok, if you don’t want to tell me where you are from it’s all right with me …
—  …

Cenário 2 (D)
— Where are you from, sir?
— Mind your own bussiness
— All right, all right, no need to be rude ...
— And don’t you ever ask again!!


Por tanto, como se pode ver, o problema fica sem resolver. Isto pode parecer que nom tem importância, mas tem-na, e mais do que semelha. Porque na identidade da persoa a naçom é praticamente o primeiro factor em que se repara, sendo aquele que vai em frente de todas as carateristicas identitárias dumha qualquer persoa. Por exemplo, se vos topardes cum indivíduo alieno, digamos dumha vila coma a «Baixia da Estrada Encol-do-Rio», que é onde nasceu o Guilherme Xaquespeira, e lhe pescudardes sobor das suas orígens, e ele vos respostar ser um «baixoestradenseriveiro», haveriades ficar como estavades, em termos de conhecimentos acerca da origem desse indivíduo. Entom poderiades perguntar, «e logho onde queda a baixia essa de onde sondes?», co qual o indivíduo alieno nom teria mas jeito que acabar dizendo, «na Inglaterra» (mesmo que tenha aventurado antes um «na banda do solpôr das Terras do Meio», que pra vós seria como dizer rem). Assi, a partir daí, ele seria pra vós, por força, um «inglês», e do baixio do ribeiro esse já nem haveriades querer ouvir rem. É umha simple questom de simplificaçom preconceituosa, mas é-vos o que há. Por outro lado, mesmo que esse fulano sentisse um grande patriotismo polo seu baixio encol do rio ou polas suas terras do meio, e vos largasse um parrafeio político sobre as suas peculiaridades, especialmente em termos de geografia (física e humana) e falar vernáculo, em contraste enorme coas do resto da Inglaterra, afinal seria mui provável que nom lhe ligássedes davondo e que vos ficássedes co conceito mais simples: «é um inglês» (embora nom de Londres). E este vosso preconceito haveria se consolidar ainda mais quando vos atopardes cum outro morador ou moradora dessas partes do mundo, e nom vos dixer mais ca «eu som inglês / inglesa», sem tentar vos largar qualquer discurso político-cultural nom pedido.

Mas em qualquer caso, pra entrardes num país qualquer, e pra lidar com assuntos oficiais nele, e disso se trata aqui no início, tendes de mostrar o passaporte, que é a prova inequívoca da vossa nacionalidade, ao contrário do sotaque do Cazaquistám ou qualquer outro indício ou aparência. Todas as persoas tenhem de ter umha nacionalidade, nom é? Isto pode ficar ilustrado reproduzindo um outro cenário real nas alfrândegas dum aeroporto da Inglaterra, onde mais dumha vez me pescudárom (sei alô porquê):

Cenário 3 (A):
— Where are you coming from, sir?
— From the aeroplane
— Where is your aeroplane coming from?
— From continental Europe
— Can I see your passport, please?
— I don’t have a passport (ai!)
— You don’t have a passport … What is your nationality?
— I don’t have a nationality
— You don’t have a nationality … come with me, sir

Cenário 3 (B):
— Where are you coming from, sir?
— From the aeroplane
— Where is your aeroplane coming from?
— From continental Europe
— Can I see your passport, please?
— Sure, there you have (por agora vou bem)
— You are from Spain ...
— I am Portuguese (já que nom som galego, entom espanhol tampouco!)
— You are Spanish, sir (dito olhando-me de acima a baixo)
— You know better than me, don’t you ... (dito entre os dentes e amolado)
— I beg you pardon?
— Never mind
— Come with me, sir
 ...

Já que logo, e sem ter de dar mais cenários coma exemplo, eu já me venho resignando a aceitar a nacionalidade errada, espanhola neste caso, a cada vez que tenho de tratar de assuntos oficiais ou políticos. Puro pragmatismo. Porém, pra um galego sim que é possível escapar do estigma da calorosa naçom em que se come «paiela» e se fala berrando, quando em situações NOM OFICIAIS. Isto pode ver-se ilustrado no cenário a seguir:

Cenário 4:
— Where are you from, sir?
— I am from Portugal (dito cum amplo sorriso, o sorriso do quem acha um certo e misterioso prazer em mentir sabendo que nom vai ser apanhado)
— Ah, do you speak Portuguese then?
— Probably
...

E assi, quando pescudado nas situações mais ordinárias da vida, tratando-se dumha simples escolha entre o estigma de ser julgado da naçom das corridas, Málaga e David Deghea, ou da naçom de Cristiano Ronaldo, Mourinho e «Albufiera», eu já figem a minha escolha. Afinal, qual das duas é mais parecida coa galega? Está claro, clarinho: quem é que esta a entender esta minha escrita?

Pro isto nom quer dizer que tudo fique resolvido dumha maneira total, nom. Emporisso, com esta hipotese é muito mais doado lidar cos estigmas, porque, que lhe querem, eu nom me importo muito com que as persoas pensem que som português. E se nom, reparem na hipótese númaro 5, que já me aconteceu varias vezes:

Cenário 5 (A):
— Where are you from, sir?
— I am from Portugal, I am Portuguese
— Ah, do you know Cristiano Ronaldo?
— Where are you from, mate? (típica pratica galega de responder umha pergunta cumha outra pergunta)
— Me ... ? I’m English ...
— Do you know Wayne Rooney?
...

Cenário 5 (B):
— Where are you from, sir?
— I am from Portugal, I am Portuguese
— Ah, you look like Mourinho
— Yeah, he’s my cousin
— Really? (sincera e agradavelmente surpreendido)
— ...

Enfim, o problema inicial de identidade ficando resolvido, pareceria que a minha vida de galego emigrante pescudado haveria ir por caminhos mais doados e cómodos. Mas nom. Agora xurdem outros problemas, e nom menos prementes. Porque umha cousa é dizer a um desconhecido qualquer que és português, e outra cousa é dizer-lho aos teus colegas, vizinhos, amigos, etc. Assi, umha cousa vai-che levar a outra, e afinal acabas, como é o meu caso, construindo umha verdadeira «net of lies» (umha rede de mentiras). Por exemplo, perguntam-che sobre o nome dos teus familiares, e irremediavelmente tens de faguer alguns «adjustements» fonéticos. So far no problem. Nomes coma José, Carlos ou Manuel som praticamente iguais em Portugal e na Galiza. Mas quando se vai profundando nas relações e te achas a falar de histórias da tua vida, esses «adjustments» vam-se fazendo mais complicados e enleando a cada vez. Por exemplo, podes falar da tua experiência laboral e de vida em geral em Madrid nos mesmos termos que acontecérom na realidade, só que mudando o nome da empresa e dalgumha persoa. Mas antes disso foi necessário faguer algumhas pescudas sobre Lisboa na internet, pra nom cometer algum erro «suspeito». Ou mesmo ir visitar essa cidade (sim, mentir pode vir a custar mui caro). Tamém tens de mentir muito quando te perguntam como se diz na tua língua tal ou tal cousa e, nom sendo português, nom sabes a resposta. Desta maneira, ao longo destes anos eu venho largando acotio verbas galegas ou inventadas («argalhada», «botar um foguete», «beira-rua», «carracha eleutrônica») e fazendo-as passar por portuguesas, porque a alternativa seria fazer-se de xordo ou mostrar mui más maneiras («how do you say “pendrive“ in Portuguese? Look it up in the dictionary, mate, don’t be so lazy!»). E segundo a mentira sobre o meu passado português se vai complicando e incrementando, os efectos acumulativos sobre a minha memória começam tamém a pesar. Por isso é fulcral ir tirando apontamentos. Do que se diz, do que se dixo errado e a quem se dixo, do que deve ser retificado quando o ensejo xurdir, do que se poderá dizer no futuro. É umha grande argalhada, como só um galego poderia argalhar. Mas já expliquei polo miúdo os efeitos de nom assumir umha nacionalidade, ou de assumir a nacionalidade errada. As persoas precisam dumha nacionalidade, porque se nom a tens, ficam perdidos, nom sabem como tratar contigo. Poderia ocorrer mesmo que che tratassem coma um refugiado, com dó ou desprezo, asegum. Se fosse por mim, eu nom teria problema algum em ficar apátrida, ou por fazer-me de albanês ou caralhistano, mas já ilustrei acima os problemas coa lei que derivariam dessa identidade fictícia. Por enquanto, estou aqui entalado coa minha pretensa portuguesidade. E continuo a pescudar nela.

Em qualquer caso, cumpre ter presente a todo momento que, como di o adágio, nom por repetir muito umha mentira ela se torna verdade. Mesmo que na foto identificativa que me tirárom recentemente no emprego saísse cumha cara de português de muito nabo. Será que estarei a somatizar as minhas mentiras? Ou será possível que, como di um outro adágio, umha mentira repetida muitas vezes acaba por se tornar verdade?




















Thursday, 15 September 2016

O NOSSO NORTE

Caminhando polo meio dumha chaira, larga e verde como eu imaginava o nosso sul, vou lendo novos nomes velhos, agochados entre pinheiros. Respiro e sento um arrecendo de sardinhas assadas, e ao longe ouço falares como que galegos ...
A airexa constante desarruma os meus cabelos, mas este sol já nom me queima. Aqui, o profundo tornou-se familiar e nom se esconde. E eu rubo ao alto dos castelos, a espreitar o oceano português ...
E cuido: Nom fomos nós que perdemos o Sul, foi o Sul que se tornou Norte.


Sunday, 28 August 2016

EL NACIONALISMO NO SE CURA VIAJANDO (Aventuras dum galego em Lisboa)

Velaqui o adágio, mas em versom afirmativa, que soia ouvir-se no meu entorno familiar (quando eu tinha um) assi que qualquer persoa, de dentro ou de fora, falava em defesa da língua ou cultura galega. Os galeguistas eram gente coma os comunistas, ou quase (tam ruins). O nacionalismo, fosse galego, basco ou catalám, era umha espécie de tribalismo, umha ideologia embiguista e negativa que ia contra o progresso natural da humanidade. O galego estava bem pra falar na rua, pràs cantigas e o folklore, mas tentar impô-lo à gente que nom o falava (ou nom queria falá-lo) era umha treta que nom tinha nengumha justificaçom. O mundo era mui grande, e pra viajar por ele, se se quiser melhorar na vida, o que cumpria falar era o inglês ou o francês, pra além do espanhol, claro.

No entanto, o galego estava bem vivo na minha vila, e era o único idioma falado nas aldeias circundantes. Os lugares, as persoas, os animais e as cousas vegetais e naturais ou minerais tinham ainda nomes galegos. Era impossível nom embater no galego a quase cada momento do dia, mesmo quando falavamos os que nom o sabiamos. E nom só: essa fala era a da gente mais probe, a fala dos labregos. Foi-me impossível nom amá-la, e quando os kilómetros e os anos me arredárom da Espanha e do espanhol, a fala de meus avôs xurdiu coma umha ilha maravilhosa, terra virgem ateigada de possibilidades, no meio do oceano europeu. Ao lado do inglês, do francês ou do italiano, o galego recuperava a sua nobreza. A sombra do castelám, ou espanhol, nom o agochava nem tingia os seus ecos milenares com acentos supostamente civilizados.

Mas da mesma maneira que o destino me arredou do espanhol, ele me aproximou do português. Em qualquer caso, cumpre dizer que, sendo raioto como som, o português nunca me foi alheio nem estrangeiro. Aliás, essa promiscuidade galego portuguesa em que eu aprendim a nossa fala, tirou-me qualquer pudor e escrúpulo de xorne espanholista e semeou em mim umha funda suspeita e até desgosto polas correntes codificadoras de corte compostelana, ou seja, espanhol.

E velaqui que hoje me encontro meio perdido a profundar no infindável túnel do coelho. Acô em Portugal, em Lisboa, nom preciso de abrir as minhas vogais, como eu tinha de fazer em Madrid, ao contrário. O parrafeio «pailám», o falar galego autêntico, que nom é bem visto na própria Galiza, aqui soa mais natural e entende-se bem. Por vezes penso no que eu nom daria por poder recuar aos tempos em que milheiros de galegos trabalhavam em Lisboa, pra vê-los interagir cos lisboetas, sem terem de agochar a sua fala. Tempos duros aqueles: trabalhavam que nem um galego.

Mas os meus tempos som de turismo: eu nom som pago pra carregar auga ou qualquer outra mercadoria, senom que som eu que paga por elas. E em Lisboa sinto-me à vontade. Adoito (= habituado) a falar e ouvir a todo tempo o castrapo anglo-saxônio, fala que ainda nom me deixa de ser estranha, chegar a um lugar (ainda que seja por umhas férias) onde poder falar o galego, mesmo aportuguesado, é quase umha esmorga. Bevo cos olhos as escritas polas ruas, compro jornais e revistas, peço cousas nas lojas e bares, ouço os falares, e sinto-me coma na casa. Ainda há quem me fale inglês, deve ser a minha pinta de turista, mas assi que se decatam de que eu falo a língua vernácula voltam decontado a ela, e eu aprendo de cada um deles repetindo as parolas que pronunciam, e mesmo puxo no xiado e sinto um estranho prazer, como que clandestino, no meu pechar as vogais: eu cuidava que isso era proibido numha cidade, mas nesta, aliás neste país, é a norma.

No entanto, nom levou muito tempo pra me decatar de que eu nom era o único espanhol à vontade em Lisboa. Porque entre os muitos turistas que pululam pola cidade olisipona, há umha cheia de espanhois, todos a falar espanhol mui à vontade. Umha fala mui cacofónica, a dos espanhois. Mas os lisboetas entendem-na bastante bem, embora pareça ser o inglês o que melhor dominam. Povo poliglota, o destes galegos do sul, aberto ao mar, hospitaleiro, de xorne humilde e cortês.

Um dia de muito sol decido ir no barquinho do Tejo. Compro o bilhete, perto da Praça do Comércio, e mandam-me pra um cais ali ao lado. Já há persoas à espera. O barco ainda nom chegou, mas cumpre ir colocando-se bem, porque eu quero ir na borda, pra desfrutar do ar e das augas do Tejo. Segundo a espera se demora mais turistas coma mim vam chegando, e aquilo vai-se enchendo de gente. A maioria das persoas parece relaxada, a falarem casualmente, mas eu nom quero perder um posto na borda, de modo que me vou deslocando cara a frente, mui à galega, coma se de nada fosse. Consigo ultrapassar alguns turistas que estavam antes de mim, mas que lhe querem, pagar nom sei quantos pesos pra ficar no meio do barco a vê-las vir nom é o meu choio! Em qualquer caso, passados alguns minutos, observo umha espécie de discussom à frente da fila (se àquilo se pode chamar fila, pois era mais bem um molho de persoas amoreadas). Entom chegam os empregados, enfiando-se polo meio daquela multitude de tagidófilos: uns vam cara o barco, um levanta a barreira e dous ou três começam a pedir o bilhete pra fazer passar a gente. Mas, ai, acontece nesse mesminho instante que um fulano, o que estava no centro daquela discussom à frente, e que nom estava mui contente coa organizaçom deste evento, se coloca no meio pra blocar o acesso ao barco (!?) E nom só: começa um parrafeio, EM ESPANHOL, sobre a conveniência de umha melhor organizaçom e sobre a sacanice de muitos dos presentes ali, que iam deslocando-se prà frente mui renartes e aleutos. Chamou-nos «listillos». Eu, como tinha os óculos de sol e o bonê (co escudo de Portugal) bem afundido quase até os olhos (como medidas de proteçom solar) nom precisei de agochar-me ou de dizer nada. Limitei-me a olhar à volta; havia ali turistas ingleses, franceses, alemães, talvez holandeses, italianos, brasileiros ... mas espanhol, por esta vez, nom havia, tirado o Generalísimo aquele ... e eu. Acho que era eu o único que entendia o que falava, mas nom era na minha ideia falar espanhol em Lisboa, e de resto eu era o maior batoteiro naquela multidom. No entanto, a situaçom divertia-me davondo, porque o fulano nom parecia decatar-se de que o persoal nom entendia nem papa do que falava, nem queria entender, e ainda por riba um dos alvos das suas críticas era um par de senhoras inglesas na frente, tam trapaceiras coma mim. Muito Brexit por aqui e por acolâ, mas o respeito polas filas birtânicas já se perdeu, o qual é algo que eu nom precisava assistir em Lisboa (e de resto, isso do fair play dos britâncios é um mito: eles sempre fam batota quando se sentem seguros de nom serem apanhados).

Enfim, o passeio polo Tejo foi óptimo, e tanto eu coma a gente envolvida no episôdio conseguimos sentar a carom da borda. Mas afinal, o que aquele espanhol rabeado decerto nom comprendeu é que mesmo que aquelas persoas entenderam e falaram o espanhol, nom haveriam retrucar-lhe, porque o que se costuma faguer em Madrid (debater descontraidamente e rifar em público por cousas insubstanciais) nom necessariamente se costuma noutros lugares. Nom na minha terra de hoje, nom na da minha naçom, e tamém nom em Lisboa. Mas há que nem viajando se cura do seu nacionalismo ...





Friday, 11 March 2016

BILHETE DE IDA E VOLTA



Era umha assoalhada manhã de inverno, e eu descia apressado cara a estaçom do caminho de ferro. As ruas desta minha cidade cotoeira estavam ainda molhadas da choiva da noite. Achegando-me a um desses homes que vendem os bilhetes à entrada dos cais, resolvim falar-lhe na minha melhor fala da terra, pra ver se desta vez me percebiam sem eu ter de repetir ou de proclamar a minha estrangeirice. Questom de fazer da compra dum bilhete de trem de ida e volta prà capital do condado um exercício tam normal coma o da compra dum saco de batatas no mercado da vila onde me nascérom, lá nas Terras Quentes do Sul. Hello, a return ticket to Cam-ches-ter  (chapodei bem no nome, como costumam fazer os enxebres d’eiqui), please. O home, de escura aparência, como qualquer um desses asiáticos que chamam eiqui em contraposiçom dos “brancos“ (que som mais bem rosados), e que tanto adoitam trabalhar nesses negócios em que se trocam papeizinhos de cores por cartonzinhos doutras cores, ficou a olhar pra mim, coma se abraiado por qualquer cousa, e mesmo semelhava que andava a esculcar na minha pretensa casual olhada. A sensaçom de incomodidade ou de insegurança que me foi vencendo, perante esse percebido escrutínio da minha ialma, e que decerto ele albiscou no fondal dos meus olhos, tornou-se em surpresa quando à minha demanda se seguiu umha resposta no que semelhou ser umha língua mui familiar: dois e quarenta e cinco. Era isso que eu percebera, dois e quarenta e cinco. Sabendo moi bem eu que nom estava numha qualquer estaçom das terras quentes do sul, dei em pensar que nom devia ter ouvido bem: sorry?, dixem, como pra confirmar a minha pressuposta ilusom auditiva. A resposta que veu a seguir já nom deixou dúvida nengumha enquanto às minhas questionadas (apenas por mim) habilidades auditivas ou perceptivas: são dois e quarenta e cinco. (Como?, dixem eu pra mim, enquanto o home continuava a me-fitar nos olhos — e tal fazia coa expressom de quem vem de descobrir um conhecido ou um conterrâneo entre a multidom anónima dos homes estrangeiros — ele-dixo « dous e corentecinco »?)
Procurando os quartos no meu porta-moedas falei-lhe na fala das terras do sul : 


Ah, fala gal ... português? ... ... 
Falo, sim ... 
... Ah ... e lo’ ... entom é brasileiro ou ... 
... Indiano, de Goa... ... dixo ele, oferecendo a mao em cunca sem deixar de me-olhar. 
Ah ... muito bem ... aí tem  (dei-lhe um bilhete de cinco livras) ... obrigadinho ...  Já está pra chegar ...  Adeus ... 
... Adeus, boa viagem ... 

e botei a correr cara o cais, donde já se ouvia o bruído do meu comboio que, vindo das vilas do norte do condado, entrava na estaçom, eu abraiado como estava de ter sido apanhado na minha galeguice, acô na ilha de Alba. Decerto que o home deveu enxergar qualquer cousa no meu sotaque, e mesmo na minha pinta de galego, que lhe fixo pensar que era um português quem lhe pedira um bilhete de ida e volta prà capital metropolitana do condado. E decerto que aló, em Goa, muito mais prò sul do que a minha terra, e tamém muito mais prò leste, nem teria ouvido falar dela. Emporisso, ele dexergou algo do seu em mim, quando eu nunca ousara imaginar que um home de terras ainda mais longínquas e quentes do que as minhas fosse me-reconhecer como alguém com quem partilhar os seus falares escuros, acô nas frias terras ilhegas de Alba.



Pensando nestas e noutras cousas tam mundanas cheguei ao meu destino, fixem as cousas que tinha a fazer na grande cidade, sem ter de falar com homem ninguém, pr’além do troco de papeis ou dalgum monossílabo na lingua saxona — que mesmo se tiver sido proferido numha outra qualquer nom teria mudado nada pra mim, nem pr’o meu interlocutor — e ao final do dia peguei no comboio de volta prà minha cidá cotoeira. Chegado à saída do corredor onde mercara o meu bilhete, na estaçom de partida, nom ficava lá mais ninguém pra conferir se os viajantes que voltavam tinham comprado os bilhetes, ou se polo contrário eram desses homens que querem viajar de balde, por nom terem papeizinhos de cores dabondo pra trocar por cartoniznhos, ou, ainda tendo-os, quererem conservá-los ou trocá-los por outras cousas (mesmo ao risco de serem presos ou de terem de largar mais logo umha ainda muito maior quantidade dos seus queridíssimos papeizinhos). Aló apenas havia um desses mendigos que sentam no chao cumha pucha na cachola a lhes agachar os olhos e que segundo os viageiros passam por diante deles pedem-lhes se tenhem qualquer troco, mais metálico ca em papel, que os de papel nom som doados de conseguir, e ainda menos de oferecer, pra lhes dar, compangueiro. Eu dixem-lhe que sim e, mesmo sendo algo novo e afoutado em mim, ousei parar a minha marcha apressada cara nengures, e olhar nos olhos daquele home, tal coma o trocador de Goa fixera nos meus ao começo daquele dia que agora semelhava como que um século atrás. Ao tempo que eu escoava umhas peças metálicas no copo de plástico que o compangueiro alevantara pra mim, iamos contando, ele e mais eu, o seu valor, sem falarmos, simplesmente olhando pra elas, eu coma quem teme que o valor que me levam seja demasiado grande, e ele como quem teme exactamente o contrário. Ai tes, compangueiro, pr’um cafezinho, dixem-lhe eu enxergando na sua olhada castanha; muitas beiçom, compangueiro, cuida bem de ti, dixo ele, enquanto eu seguia a olhar nos seus olhos desinteresseiros e sinceros coma os dum cativo, o cativo que ele era. 

E de todo este troco de palavras, cujo significado é tam preciso como venho de expor aqui, embora o muito tempo passado desde aquele dia poida fazer questionar a sua exactidom, nunca conseguim eu lembrar em que língua ou fala foi conduzido, mesmo que eu queira pensar que foi esta mesma galega que venho de escrever acima em itálico. Mas afinal tanto me tem, estas como quaisquer outras, porque eu tenho pra mim que há apenas duas liguagens que contam entre os homens. Umha é a linguagem dos sons, o das palavras, que por vezes até conseguimos pôr em papel, dumha maneira mais ou menos adequada segundo quem as diz e como as diz, e que nom é mais ca o pretexto pra qualquer outra cousa incógnita ou banal. E a outra é a linguagem que importa de verdade, a única que importa, e que lemos no fondal dos olhos dos homes, quando está do fado que tal maravilhosa cousa façamos, pra vermos nele a reflexom dos olhos próprios, de volta, num dia qualquer de inverno, quanto mais ao longe, na ilha de Alba.






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                                 DIALECTOLOGIA 

Reconstruiçom do esquisito troco de palavras que teve lugar entre um galego e um indiano de Goa à entrada d’umha estaçom de caminhos de ferro da Lancaxaira, na fria e bretemosa ilha d’Alba, co galho da compra dum bilhete de ida e volta pra industriosa cidade de Camchester, no cor do grande condado lancaxairo, e que se produziu inteiramente numha fala incompreensível pr’os moradores destas partes afastadas e nom muito assoalhadas do mundo, a lingoagem galega das longínquas terras quentes do sul. 

Galego (falando pra si): 
... fai um sol de caralho hoje ... bom, imos ver se desta vez me entendem sem ter eu de repetir ... vou-lhes pôr o sotaque d’eiqui, a ver se assim me percebem d’umha puta vez ... ehem ... imos lá ... ehem ... (dirigindo-se cara o primeiro trocador que ve no corredor) hello, can I have a return ticket to Cam-ches-ter, please? ...

Indiano de Goa: 
Dois e quarenta e cinco ...

Galego (falando pra si todo abraiado): 
Ele-falou galego?

Galego (falando já pr’o indiano de Goa): 
Sorry?

Indiano de Goa: 
São dois e quarenta e cinco.

Galego (falando pra si): 
Sim que falou galego, dixo dous e corentacinco! Ele-nom pode ser!

Galego (falando pr’o indiano de Goa): 
Ah, fala gal ... português?

Indiano de Goa
Falo, sim (esculcando nos olhos do galego)

Galego: 
Ah ... e lo’ ... entom é brasileiro ou ... ...

Indiano de Goa (oferecendo a mão em cunca pra recadar o dinheiro polo bilhete e sem deixar de olhar pr’os olhos do galego): 
Indiano, de Goa.

Galego: 
Ah ... muito bem ... aí tem  (dá-lhe um bilhete de cinco livras, recebe o troco, que o indiano de Goa lhe dá sem deixar de fitar nos olhos) ... obrigadinho ... Já está pra chegar ...  Adeus 

Indiano de Goa (já voltado cara o próximo viageiro): 
Adeus, boa viagem.

Galego (correndo polo corredor em diante e falando pra si): 
Manda caralho que quero eu falar o saxon mais aperfeiçoado e vou dar c’um que fala galego. Ele-como faria pra saber que eu era galego ... ?!
Ele-nom diria bem o nome da cidade? Cam-ches-ter, Cam-ches-ter ...





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                                GEOGRAFIAS AO LONGE

Terras quentes do sul donde veu o galego que mercou o bilhete do comboio de ferro de ida e volta pr’a cidade de Camchester, na fria ilha de Alba, a um indiano de Goa, que lhe falou galego:




Terras ainda mais quentes e mais pr’o sul (e ainda pro Leste) donde veu o indiano que vendeu um bilhete de ida e volta do comboio de ferro pr’a cidade de Camchester, na fria ilha de Alba, a um galego, que lhe falou galego:




Terras frias da bretemosa ilha d’Alba, onde vive o albano que pediu um troco a um galego que por aló passava, na fala saxona dos albanos ou seica em galego, num asoalhado dia d’inverno (com as ruas ainda molhadas da choiva da noite):