Tuesday, 12 August 2025

DR PEPPER QUENTE (Aventuras dum galego na Islândia)

Marchava eu a passo de cam rentes do rio-lagoa chamado Lagarfljót, onde as Terras do Leste da Ultima Thule, em direitura da minha hospedagem na vila de Egilsstaðir, e coa aquela ou preocupaçom de nom chegar a tempo pra apanhar o meu paxaro de ferro da tarde. De modo que, após ter percorrido uns, bravo sei, vinte quilómetros às carreiras em três ou quatro horas, decidim tentar a minha mão cumha boleia. Mas nom me parava ninguém, merda. De modo que matinei em pular no rio-lagoa, numha estreitura que tinha perto do seu cabo a jusante, de jeito a poupar-me uns kilómetros ou minutos — de que tanta necessidade tinha na minha falta de previsom ou planejamento — e mais fazer um correndinho a valmontes justo até o pé da casa da minha hospedeira, que decerto haveria levar-me, na minha derradeira etapa na bisbarra, até o aeroporto da vila, apanhar o meu desejado paxaro férreo ou aviom, e cos minutos contados sendo muito optimista. Mas tinha que tentar, que caralho. E destarte, assi que estava eu à beira da estrada númaro 931 (ca neste país tenhem todas um númaro, mais do que um nome) coa minha mochila aberta aos meus pés e eu enfiando nela a camisa e prestes a desatar as botas, quando umha viatura me parou, aliás, recuou duns cincoenta ou mais metros à frente, ca tinha passado direita por mim sem fazer caso do meu polegar implorante, e agora parece que o seu condutor tinha se arrependido e vinha às arrecuas, cos faros vermelhos acesos, ao meu encontro, decerto que pra darme umha boleia. «Til Egilsstaðir», perguntei-lhe eu em islandês (com acento no “e” e sem pronunciar no guê) implorante coma o meu dedo escacha-piolhos, assi que o fulano, um home de meia idade e pinta de trabalhador do lugar, me abrira a sua porta. Acenou-me pra dentro, e lá que eu já aquelei a minha boleia, sem necessidade de botar-me às augas fredas, e perigosas, ca dim que tem um mostro no fundo, da lagoa-rio Lagar (sem vinho) da Última Thule. Sem dúvida agora ia eu ter tempo dabondo pra dar apanhado o meu aviom de volta prà capital do país tuleano, Angra Fumegante, mais internacionalmente conhecida coma Reikjavík. E tempo mesmo pra me relaxar um algo, a falar co meu salvador da tarde.

        Falar sim falamos, mas em inglês, ca o ghicho era um ucraniano do lugar, um refugiado da guerra daquelas partes eslavas dos confins orientais da velha Europa. Após desculpar-se por ter estrado por todo o soalho do seu carro nom sei que peças ou tarecos de metal e madeira, que eu tinha que pôr-lhe enriba deles os pés, perguntou-me de onde eu era. «Portugal», mentim eu, coma o galego mentirám que som. «Portugal», repetiu ele com melhor sotaque português ca mim, ca como sabemos os eslavos tenhem um sotaque muito semelhante ao português. «I am from Ukraine e touporroutou e que tal que sei eu e ba-bla-bla» falou ele num inglês bastante mais ruim do que o meu português, mas que dava pra entender bem. Se tinha fugido da guerra ou nom, nom mo dixo, mas ficara-lhe ali família na «Russian-occupied Crimea», dixera quase que choromingando. E ofereceu-me a seguir umha lata de Dr Pepper, que tinha ali no estojo de diante do carro. Eu rejeitei polidamente o seu convite, ca ia eu só matinando na saborosa auga freda e volcánica que lhe ia beber na casa da minha hospedeira, pra marchar bem fresco prà Angra Fumegosa, na minha derradeira etapa desta viagem tam boreal de meu. Mas o gajo — Sergei, chamava-se — nom aceitou a minha ponderada recusa, aliás, nom ia aceitá-la: «you have to drink, you are very tired» dixo-me cum intimidante torgo eslavónico, que igualmente podia ter dito «you have to kill these Russians now, or I kill you». Sub-comandante Sergei, das milícias irregulares do Donbass ou da Crimea Oriental ou que caralho sei eu, e tanto me tinha, nom ia eu contradizer agora, no seu carro, as sua ordens, dixem eu de mim pra mim. E lá que peguei eu no seu Dr Pepper, a vintecinco graus de temperatura ambiente (a do carro, que decerto o tivera estacionado à soalheira) e pensando com saudade nas augas fredas da lagoa e no seu quem sabe se amigável mostro.

        O Sergei, após conferir que eu tinha golechado o seu Dr Pepper quente inteirinho, ofereceu-se mesmo pra levar-me ao aeroporto da vila, mas eu dixem-lhe que obrigado, que a minha hospedeira já se tinha toda aquelada pra me levar ela e que agora, após a sua salvadora e muito refrescante boleia, já nom andava com tantas pressas. Deixou-me já que logo ao pé do meu «Airbnb» (e ele morava muito por perto) e despedim-me dele agradecendo-lhe imenso e desejando-lhe boa sorte, a ele, aos seus e ao seu país, e mais encorajando-o a que nom perdesse a esperança de achar umha mulher ucraniana nestas partes tam longínquas do mundo, cousa de que tinha verdadeira necessidade, polo que puidem coligir da nossa breve cavaqueira.

        Pouco despois, já no meu paxaro de ferro, voando por riba dessas cuinhas e vârzeas que eu percorrera apenas umha horas antes, em direitura da fumegosa vila da Angra, capital de Última Thule, cuidava eu na minha breve vida nesta encontrada hiperbórea e de ímpar beleza, em como eu me sentira na minha própria terra, e que se quadra mesmo o era. Mas umha cousa era certa tamém: eu nom ia voltar a pousar os meus pes nos trilhos da sua imensa fraga (a meirande da Islândia) nem a dormir esparruado no alto das suas penas, a enxergar ao longe, no verde da terra e no azul do céu, o mistério que nos borborinha: aqui é a tua terra, nom vás alhures. Eu nom vou crebar o meigalho e a magia desta ilha non-trobada, nom. E ali abaixo ficava outrossim o saudoso Sergei, seica a chorar pola sua ucraniana terra e gente, longe, muito longe, isolado ele na solidom das serães eternas e sem noite — aquelas que eu sempre percurei — da Última Thule, e a beber essa beberagem que tampouco eu voltarei a beber, mas que sempre lembrarei com sabor a irmandade imorredoira, a do Dr Pepper quente.






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