Marchava eu a passo de cam rentes do rio-lagoa chamado Lagarfljót, onde as
Terras do Leste da Ultima Thule, em direitura da minha hospedagem na
vila de Egilsstaðir, e coa aquela ou preocupaçom de nom chegar a
tempo pra apanhar o meu paxaro de ferro da tarde. De modo que, após
ter percorrido uns, bravo sei, vinte quilómetros às carreiras em
três ou quatro horas, decidim tentar a minha mão cumha boleia. Mas
nom me parava ninguém, merda. De modo que matinei em pular no
rio-lagoa, numha estreitura que tinha perto do seu cabo a jusante, de
jeito a poupar-me uns kilómetros ou minutos — de que tanta
necessidade tinha na minha falta de previsom ou planejamento — e
mais fazer um correndinho a valmontes justo até o pé da casa da
minha hospedeira, que decerto haveria levar-me, na minha derradeira
etapa na bisbarra, até o aeroporto da vila, apanhar o meu desejado
paxaro férreo ou aviom, e cos minutos contados sendo muito
optimista. Mas tinha que tentar, que caralho. E destarte, assi que
estava eu à beira da estrada númaro 931 (ca neste país tenhem
todas um númaro, mais do que um nome) coa minha mochila aberta aos
meus pés e eu enfiando nela a camisa e prestes a desatar as botas,
quando umha viatura me parou, aliás, recuou duns cincoenta ou mais
metros à frente, ca tinha passado direita por mim sem fazer caso do
meu polegar implorante, e agora parece que o seu condutor tinha se
arrependido e vinha às arrecuas, cos faros vermelhos acesos, ao meu
encontro, decerto que pra darme umha boleia. «Til Egilsstaðir»,
perguntei-lhe eu em islandês (com acento no “e” e sem pronunciar
no guê)
implorante coma o meu dedo escacha-piolhos, assi que o fulano, um home de meia
idade e pinta de trabalhador do lugar, me abrira a sua porta.
Acenou-me pra dentro, e lá que eu já aquelei a minha boleia, sem
necessidade de botar-me às augas fredas, e perigosas, ca dim que tem
um mostro no fundo, da lagoa-rio Lagar (sem vinho) da Última Thule.
Sem dúvida agora ia eu ter tempo dabondo pra dar apanhado o meu
aviom de volta prà capital do país tuleano, Angra Fumegante, mais
internacionalmente conhecida coma Reikjavík. E tempo mesmo pra me
relaxar um algo, a falar co meu salvador da tarde.
Falar
sim falamos, mas em inglês, ca o ghicho era um ucraniano do lugar,
um refugiado da guerra daquelas partes eslavas dos confins orientais
da velha Europa. Após desculpar-se por ter estrado por todo o soalho
do seu carro nom sei que peças ou tarecos de metal e madeira, que eu
tinha que pôr-lhe enriba deles os pés, perguntou-me de onde eu era.
«Portugal», mentim eu, coma o galego mentirám que som. «Portugal»,
repetiu ele com melhor sotaque português ca mim, ca como sabemos os
eslavos tenhem um sotaque muito semelhante ao português. «I am from
Ukraine e touporroutou e que tal que sei eu e ba-bla-bla» falou ele
num inglês bastante mais ruim do que o meu português, mas que dava
pra entender bem. Se tinha fugido da guerra ou nom, nom mo dixo, mas
ficara-lhe ali família na «Russian-occupied Crimea», dixera quase
que choromingando. E ofereceu-me a seguir umha lata de Dr Pepper, que
tinha ali no estojo de diante do carro. Eu rejeitei polidamente o seu
convite, ca ia eu só matinando na saborosa auga freda e volcánica
que lhe ia beber na casa da minha hospedeira, pra marchar bem fresco
prà Angra Fumegosa, na minha derradeira etapa desta viagem tam
boreal de meu. Mas o gajo — Sergei, chamava-se — nom aceitou a
minha ponderada recusa, aliás, nom ia aceitá-la: «you have to
drink, you are very tired» dixo-me cum intimidante torgo eslavónico,
que igualmente podia ter dito «you have to kill these Russians now,
or I kill you». Sub-comandante Sergei, das milícias irregulares do
Donbass ou da Crimea Oriental ou que caralho sei eu, e tanto me
tinha, nom ia eu contradizer agora, no seu carro, as sua ordens,
dixem eu de mim pra mim. E lá que peguei eu no seu Dr Pepper, a
vintecinco graus de temperatura ambiente (a do carro, que decerto o
tivera estacionado à soalheira) e pensando com saudade nas augas
fredas da lagoa e no seu quem sabe se amigável mostro.
O
Sergei, após conferir que eu tinha golechado o seu Dr Pepper quente
inteirinho, ofereceu-se mesmo pra levar-me ao aeroporto da vila, mas
eu dixem-lhe que obrigado, que a minha hospedeira já se tinha toda
aquelada pra me levar ela e que agora, após a sua salvadora e muito
refrescante boleia, já nom andava com tantas pressas. Deixou-me já
que logo ao pé do meu «Airbnb» (e ele morava muito por perto) e
despedim-me dele agradecendo-lhe imenso e desejando-lhe boa sorte, a
ele, aos seus e ao seu país, e mais encorajando-o a que nom perdesse
a esperança de achar umha mulher ucraniana nestas partes tam
longínquas do mundo, cousa de que tinha verdadeira necessidade, polo
que puidem coligir da nossa breve cavaqueira.
Pouco despois, já no meu paxaro de ferro, voando por riba dessas cuinhas e
vârzeas que eu percorrera apenas umha horas antes, em direitura da
fumegosa vila da Angra, capital de Última Thule, cuidava eu na minha
breve vida nesta encontrada hiperbórea
e de ímpar beleza, em como eu me sentira na minha própria terra, e
que se quadra mesmo o era. Mas umha cousa era certa tamém: eu nom ia
voltar a pousar os meus pes nos trilhos da sua imensa fraga (a
meirande da Islândia) nem a dormir esparruado no alto das suas
penas, a enxergar ao longe, no verde da terra e no azul do céu, o
mistério que nos borborinha: aqui é a tua terra, nom vás alhures.
Eu nom vou crebar o meigalho e a magia desta ilha non-trobada, nom. E
ali abaixo ficava outrossim o saudoso Sergei, seica a chorar pola sua
ucraniana terra e gente, longe, muito longe, isolado ele na solidom
das serães eternas e sem noite — aquelas que eu sempre percurei —
da Última Thule, e a beber essa beberagem que tampouco eu voltarei
a beber, mas que sempre lembrarei com sabor a irmandade imorredoira,
a do Dr Pepper quente.